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Os cabeças de planilha instalaram o mito de que o câmbio desvalorizado era vital para manter a inflação baixa. O que de fato instalaram é a base da desindustrialização do país.
Desde 2002, a participação dos produtos manufaturados no bolo exportador diminuiu de 55% a 43%, enquanto que aumentou a participação dos produtos básicos de 28% para 42%. A participação do Brasil no comércio mundial se manteve estável no período (em torno a 2%) e está atrás de emergentes como China, Rusia, Coréia do Sul, Singapura, México, Taiwan e Malásia.
Há muitas variáveis que determinam o crescimento de um pais, como o grau de educação da sua força de trabalho, a facilidade para realizar negócios, o grau de desenvolvimento das suas instituições, etc. Mas há variáveis fundamentais que definem o rumo da atividade econômica, como o câmbio, que não podem ser manipuladas sem levar em conta a idéia de pais que se quer. Para mim, é evidente que a política cambial do governo Lula, mal que pese aos situacionistas de plantão, só reforçou o papel do Brasil como produtor de commodities, em detrimento de um perfil industrial para o pais. O Brasil parece ter abandonado a idéia da concorrência com a China ou dos demais trigres asiáticos no plano industrial, limitándo-se a recuperar o poder de compra das classes mais desfavorecidas, através de políticas monetárias ultraortodoxas, incentivos fiscais discrecionários e importados baratos da China.
Esse é um caminho que mantem a patria financeira intacta, favorece aos grandes produtores de commodities, e protege ao setor industrial com pouca concorrência externa, próximo ao setor de commodities (como é a indústria de alimentos, ou siderúrgica), em detrimento das micro e pequenas empresas, da indústria eletrônica, de bens de capital, de innovação, etc. Eu acredito que são esses os setores da economia capazes de ajudar ao país a dar um salto qualitativo no seu produto, e que demandam maior qualificação da mão de obra, exigindo melhor educação para todos. São setores dinâmicos, com enormes perspectivas de melhorar a vida das pessoas. Já as commodities não permitem uma ampliação dos beneficiários dos aumentos de produção, já que estes sempre vêm acompanhados de novas tecnologias que requerem menos mão de obra.
O real apreciado inibe o desenvolvimento interno e o crescimento acelerado do produto.
O que não fica claro é qual é o mecanismo que o governo pretende adotar para saír dessa armadilha. Pois para que o câmbio comece um ciclo de apreciação sem volatilidade, que permita ao produtor, seja exportador ou não, passar a contar com um câmbio futuro mais caro que o atual, alguma medida deveria ser tomada de forma mais sustentável. O efeito dos 2% de IOF parecem ter sinalizado ao mercado a intenção do governo de intervir de alguma forma para evitar a continuação da queda, mas não parece suficiente ainda. A impressão que o Governo passa é de um racha entre Fazenda e o BC. A Fazenda impós o IOF, pede dólar a 2,60 (uma maxidesvalorização de 51%!) e promoveu medidas fiscais keynesianas para conter a crise. Corretas ou não, innegávelmente tem o pé no acelerador do crescimento. Enquanto isso, o BC já passa de ultraconservador, com o diferencial de juros superior ao do início da crise subprime (que descambou na megacrise internacional) em agosto de 2007, que era de 6,75% (hoje é de 8,5%). Na última reunião, em vez de continuar com o corte de juros, o BC decidiu dar uma "paradinha".
O BC parece não ter aprendido a lição de 2008. Vai deixar que o próximo estouro da boiada novamente leve o dólar aos 2,60 pretendidos pelo Mantega, só que de uma tacada só, com o conseguinte desajuste nas contas internas (insumos repentinamente mais caros, empresas expostas a jogos especulativos, etc).
Nada vai mudar significativamente enquanto que a política monetária não dê sinais de que 1) Os juros rumam a um diferencial negativo, se comparados a inflação de 4,5% + impostos de 2% (em torno de 6% a.a); 2) o câmbio permite uma melhora da competititvidade externa, colocando o Brasil no mapa dos investimentos em indústria de manufacturas e de tecnologia. Assim,
o Brasil não vai conseguir acelerar o crescimento de 3, 4 ou 5% a.a. para 9, 10 ou 12% a.a. Não permitir que o país se desenvolva a essa velocidade é um crime contra os milhões de favelados que existem no país. Sem essa taxa de crescimento, nunca conseguiremos transformar essa mazela urbana que são as favelas, em lugares dignos para que os seres humanos se desenvolvam plenamente no século XXI.








